COLUNA RAUL LODY
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Lelê de milho, do tabuleiro à mesa

Recentemente ouvi falar em acarajé “profano” e acarajé “sagrado”, e fiquei convicto de que essa dicotomia ocidental e cristã não se aplica em outros sistemas culturais e simbólicos, como ocorre no mundo Iorubá, que é tão presente no nosso imaginário de receitas e de sabores já nacionalmente brasileiros.

Pois se fala, ou melhor se come, histórias e memórias, e assim essas referências são as que certamente fazem os melhores sabores, com a escolha dos ingredientes interpretados na realização dos processos culinários de cada receita.  

Nesse cenário, exemplifico uma receita que também ganha um sentido sagrado, e que deliciosamente está na rua, na casa e no terreiro. Refiro-me ao lelê de milho, aquele prato que é quase um manjar recoberto de coco ralado.

Essas “vendas” nos tabuleiros e nas caixas de vidro, verdadeiras vitrines de sabores, chegavam das mãos femininas, muitas vinculadas aos candomblés. Algumas exerciam o papel de “iabassê”, cozinheira dos deuses, mulheres especialmente iniciadas nos terreiros.

O ritual da comida inicia-se quando se pensa em comer, quando há uma idealização da comida, e assim o processo do desejo de “comer” já é acionado, e vai dessa maneira recuperando todos os símbolos possíveis que estão nas nossas histórias pessoais e nas nossas recuperações dos sabores.

Certamente as comidas de milho integram-se aos nossos imaginários da boa comida, da comida farta, e principalmente gostosa, pois são tantas as receitas a partir do “Zea mays” que fazem parte dos nossos   cardápios.

O lelê de milho, por exemplo, é feito com milho-vermelho picadinho, açúcar, leite de coco, raspas de coco, canela e cravo-da-índia; e ainda, alguns acrescentam sumo de limão. A massa é enformada, e se come como bolo.

O lelê é também interpretado como uma comida sagrada dos orixás caçadores, preservando e marcando um lugar especial das comidas de milho nos cardápios afrodescendentes.

Como acontece com a “axoxó”, o lelê de milho é uma comida de Odé, e de Logun Edé, outro orixá relacionado a caça e a pesca. Essas relações mostram os circuitos entre as receitas das casas, das nossas mesas, das comidas tradicionais de rua, e das comidas que são ritualmente realizadas nas cozinhas dos terreiros.

A receita do lelê nos terreiros é a mesma que se realiza nas nossas casas. Contudo, os processos rituais das cozinhas dos terreiros incluem momentos particulares que sacralizam os ingredientes e a própria comida.

O milho, esse notável cereal americano, une civilizações e dá sabor aos nossos imaginários, e assim se constrói as identidades dos paladares, as identidades à mesa, diga-se da mesa brasileira.

RAUL LODY

O AUTOR Antropólogo, especialista em antropologia da alimentação, museólogo. Representou o Brasil no International Commission the Anthropology of Food. Autor de vasta obra publicada com centenas de artigos, filmes, vídeos, e mais de 70 livros nas áreas de arte popular e gastronomia/cultura/ patrimônio. Reconhecido por premiações mundiais e nacionais pelo Gourmand World Cookbook Awards. Curador da Fundação Gilberto Freyre, da Fundação Pierre Verger e do Museu da Gastronomia Baiana do Senac Bahia.