COLUNA RAUL LODY
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O axé pupá, os afrosabores na festa de BárbaraIansã

Dezembro é o mês de Santa Bárbara, e ela é lembrada nas missas das quartas-feiras da igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde também há o oferecimento de acarajés. Isso é feito por uma baiana tradicionalmente vestida, que oferece pequenos acarajés, formato bem tradicional, num tabuleiro de madeira forrado de folhas de bananeira.

No dia 4 de dezembro, os irmãos de devoção de Santa Bárbara também oferecem caruru, e assim cumprem mais um ritual que une a santa ao orixá do povo do candomblé.

As devoções, os cumprimentos de promessas, os oferecimentos de acarajé integram-se ao uso ritual de roupas vermelhas vermelho, cor da Santa, cor do orixá Iansã, Oyá, a dona do acarajé.

Era do tradicional Mercado de Santa Bárbara que se originava a procissão, e saia o andor para percorrer algumas das ruas do antigo centro histórico do Pelourinho, que visitava também o quartel do Corpo de Bombeiros.

Assim, celebra-se Oyá ou Iansã, orixá dos trovões, das ventanias e da cor vermelha. A fé vem do mercado porque ela é a dona do mercado, do tabuleiro, do ofício da baiana de acarajé.

O mercado é um lugar tradicional da história da mulher africana e afrodescendente e, em especial, da mulher Nagô/Iorubá. O mercado traz a síntese do mundo, e de tudo que a natureza pode oferecer e que o homem pode transformar, são produtos, objetos artesanais, comida; e principalmente encontros.

Falando com Cid Teixeira, notável historiador das coisas da Bahia, trouxe algumas informações sobre o caruru, enquanto comida e enquanto festa, que ajuda a entender essa magnífica interação entre a vida e o sagrado.

Cid Teixeira aponta que havia grande variedade de carurus que se comiam na Bahia no início do século XX. Eram feitos carurus com diferentes ingredientes, inclusive caruru de quiabo.

Caruru é um guisado feito de folhas; folhas de qui-iô-iô, de bertalha, de bredo de Santo Antônio, de azedinha, e de vinagreira.

De certa forma o caruru baiano é um prato muito próximo do efó, também feito com folhas e azeite-de-dendê, além de outros ingredientes. Pratos que são normalmente acompanhados por arroz branco, insosso, ou tradicionalmente com o acaçá branco, para pontuar o gosto temperado e colorido do próprio dendê.

Contudo, no imaginário afro-baiano, o caruru ficou sacralizado pelo uso de quiabos. E, segundo o costume, aqueles que se servirem com quiabos inteiros deve interpretar que é um anúncio de que o santo homenageado está pedindo a ele um caruru para o próximo ano.

Oferecer caruru é uma obrigação religiosa, um pagamento de promessa, um bom motivo para reunir os amigos, e assim celebrar entorno da comida.

 

 RAUL LODY.

O AUTOR Antropólogo, especialista em antropologia da alimentação, museólogo. Representou o Brasil no International Commission the Anthropology of Food. Autor de vasta obra publicada com centenas de artigos, filmes, vídeos, e mais de 70 livros nas áreas de arte popular e gastronomia/cultura/ patrimônio. Reconhecido por premiações mundiais e nacionais pelo Gourmand World Cookbook Awards. Curador da Fundação Gilberto Freyre, da Fundação Pierre Verger e do Museu da Gastronomia Baiana do Senac Bahia.