O período da Quaresma, para os católicos, é um grande momento para viver rituais que culminam com a Semana Santa. Rituais que afirmam a longa história de marcar calendários religiosos orientados pelas comidas e bebidas.
É profunda a relação do que se come com a fé religiosa, com os contatos com o sagrado, com os rituais, com as diferentes maneiras de experimentar o sagrado pelos ingredientes, pelas sociabilidades que revelam papéis, que afirmam identidades, entre tantas outras maneiras de escolher o que comer nestes períodos religiosos.
Assim, é tradição da mesa baiana a abstenção da carne, “carne de sangue”; carnes frescas, embutidos, produtos de base animal para seguir os preceitos religiosos da Igreja que, expõe neste período orientação de jejuns, indicando os cardápios à base de produtos do mar.
Tudo que vem do mar pode integrar cardápios, receitas, estilos de viver os sabores tradicionais da Bahia, e se no Recôncavo, são marcados pelo dendê.
Peixes, mariscos e crustáceos fazem parte de uma sofisticada e variada mesa de sabores nas celebrações familiares, onde há predileção pelas comidas de “azeite”. Moqueca de bacalhau e/ou peixe salgado, moqueca de ostra, moqueca de camarão, moqueca de peixe, moqueca de siri-mole; salada de bacalhau, escaldado de peixe, ensopado de camarão, escaldado de bacalhau, frigideira de bacalhau, frigideira de camarão, frigideira de ostra; bacalhau assado, bobó de camarão, bolinho de peixe; moqueca de folha, moqueca de pititinga; e complementos como pirões feitos com os caldos, as farofas de dendê, o arroz, o acaçá de milho branco e de arroz insosso, fazem algumas das receitas que aguçam os desejos da Bahia de comer produtos do mar e alguns de rios.
Este entendimento do que é sagrado vive nas cozinhas durante a Quaresma e são realizações muitas vezes coletivas, familiares e autorais, numa repetição de receitas que afirmam a identidade da Bahia à mesa.
RAUL LODY.